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Terremoto de magnitude sublime
Quando a Terra treme, certezas desmoronam e a solidariedade desperta. Entre ruínas e recomeços, uma reflexão sobre a fragilidade humana, a transição planetária e a força sublime de reconstruir juntos.
Nas últimas semanas, o mundo ficou dividido entre as guerras no Oriente Médio, o prolongado conflito entre Rússia e Ucrânia e os terremotos devastadores que atingiram a América do Sul. A Venezuela sofreu dois grandes abalos em junho; o Peru registrou mortes e destruição em julho; e, agora, a Colômbia enfrenta uma tragédia de enormes proporções. Certamente, nesse mesmo período, ocorreram inúmeras notícias boas que não receberam a devida atenção. O sofrimento costuma ocupar as manchetes, enquanto a solidariedade permanece nos bastidores.
As câmeras mostram os edifícios desmoronando, mas nem sempre permanecem tempo suficiente para registrar as mãos que retiram pessoas dos escombros, os desconhecidos que dividem alimentos, os profissionais que trabalham até a exaustão e as famílias que acolhem quem perdeu a própria casa.
Talvez seja justamente nesse entorno das grandes tragédias que se encontre aquilo que há de mais sublime.
Não há nada de belo na morte, no medo ou na destruição. Não devemos romantizar o sofrimento de quem perdeu familiares, casa, trabalho e história. Tampouco podemos observar a dor alheia como se fosse apenas uma ilustração para nossas reflexões espirituais. Antes de qualquer interpretação, existem pessoas que precisam de abrigo, alimento, tratamento, proteção e respeito.
Entretanto, por mais assustadora que seja a ideia de perder tudo — até mesmo a própria vida —, acredito que precisamos observar esses fenômenos também com outros olhos. Maremotos, terremotos e furacões causam destruição material e interrompem existências, mas igualmente expõem a fragilidade das estruturas sobre as quais edificamos nossa segurança.
Em poucos segundos, uma força natural que nenhum exército, bilionário ou governante consegue deter pode transformar patrimônios em ruínas. A terra não pergunta quanto possuímos, qual cargo ocupamos ou quantas pessoas nos obedecem. Quando o chão se move, títulos, cofres, palácios e aparências perdem grande parte da importância que lhes atribuímos.
Tal constatação não diminui o valor do trabalho, da prosperidade ou do planejamento. O problema não está em conquistar bens, mas em permitir que eles nos conquistem. Não está em construir, mas em acreditar que aquilo que construímos materialmente será capaz de sustentar para sempre aquilo que ainda não edificamos dentro de nós.
É nesse momento que deveríamos perguntar: se tudo aquilo que possuo desaparecesse hoje, o que ainda restaria de mim?
Restaria minha dignidade? Minha fé? Meu conhecimento? Minha capacidade de amar? Restariam pessoas que desejariam permanecer ao meu lado não pelo que possuo, mas pelo que sou?
Muitas vezes, empregamos quase toda a existência tentando enriquecer, construir pequenos impérios e angariar poder para impressionar pessoas que talvez nem gostem verdadeiramente de nós. Alimentamos o ego na esperança de silenciar o vazio, mas o ego é um inquilino insaciável: quanto mais espaço recebe, maior se torna.
Será que devemos ingressar na política para servir ou para enganar? Exercer a medicina para cuidar ou para explorar a vulnerabilidade de quem sofre? Trabalhar com publicidade para informar ou para fabricar necessidades e estimular o endividamento? Atuar na advocacia para assegurar direitos e o devido processo ou para transformar o conhecimento jurídico em instrumento de fraude para proteger criminosos por dinheiro?
Nenhuma profissão é indigna por si mesma. A política pode proteger milhões de pessoas; a medicina pode aliviar dores; a publicidade pode divulgar aquilo que é útil; e a advocacia é indispensável à Justiça — defender direitos não significa aprovar crimes. O que torna uma atividade digna ou indigna é a consciência de quem a exerce, os meios que utiliza e os objetivos que procura alcançar.
O terremoto mais perigoso talvez não seja aquele que desloca placas tectônicas, mas aquele que acontece silenciosamente dentro do caráter humano: quando o dinheiro desloca a honestidade, o poder soterrra a compaixão e a ambição abre fendas entre a consciência e as atitudes.
Transição não é punição
Na obra Transição Planetária, psicografada por Divaldo Pereira Franco e atribuída ao Espírito Manoel Philomeno de Miranda, a humanidade é apresentada no decorrer de um processo lento e gradual de transformação. A Terra caminharia da condição de mundo de provas e expiações para um mundo de regeneração.
Essa transição não ocorreria por um passe de mágica, nem representaria o fim físico do planeta. Trata-se, sobretudo, de uma mudança moral: a substituição progressiva do egoísmo, da violência e do abuso de poder por relações fundamentadas na ética, na responsabilidade, no respeito à natureza e na solidariedade.
A obra utiliza o tsunami ocorrido no oceano Índico como cenário para abordar desencarnações coletivas, auxílio espiritual e reorganização das experiências humanas. Entretanto, essa interpretação não nos autoriza a apontar para determinada vítima e afirmar que ela morreu para pagar uma dívida ou porque não estava preparada para a nova etapa do planeta.
Não conhecemos a história espiritual de ninguém.
Transformar a reencarnação ou a lei de causa e efeito em instrumento de julgamento seria uma forma de crueldade disfarçada de conhecimento religioso. Diante daquele que perdeu tudo, não nos cabe perguntar o que ele fez para merecer. Cabe perguntar o que podemos fazer para ajudar.
Em O Livro dos Espíritos, especialmente nas questões 737 a 741, os chamados “flagelos destruidores” são apresentados como acontecimentos capazes de acelerar transformações que, em condições comuns, exigiriam séculos. Porém, a própria obra reconhece que pessoas de diferentes condições morais são atingidas e que a existência corporal representa apenas uma pequena parte da jornada do Espírito.
Isso amplia a compreensão da vida, mas não elimina o sofrimento de quem permanece. A crença na imortalidade não deve produzir indiferença; deve aumentar nossa responsabilidade. Se acreditamos que a vida continua, temos ainda mais motivos para cuidar da vida enquanto ela está sob nossa proteção.
Também não devemos afirmar que Deus necessita de terremotos para nos ensinar. Na questão 738, os Espíritos explicam que os meios de progresso nos são oferecidos diariamente pelo conhecimento do bem e do mal. O problema é que frequentemente recusamos as lições silenciosas e só despertamos quando nossas certezas são abaladas.
Talvez Deus não esteja na parede que cai, mas nas mãos que a reerguem. Não esteja no desespero, mas na coragem que impede o desespero de pronunciar a última palavra.
A dor não transforma automaticamente
A Psicologia nos ajuda a evitar outra interpretação perigosa: a ideia de que toda pessoa necessariamente cresce depois de uma tragédia. Emergências, guerras e desastres naturais podem produzir medo, luto, ansiedade e transtornos relacionados ao trauma. Segundo a Organização Mundial da Saúde, praticamente todas as pessoas atingidas por emergências experimentam algum grau de sofrimento psicológico.
Algumas conseguem, com o tempo, reorganizar a vida e encontrar novos significados. Outras necessitam de acompanhamento profissional, segurança, vínculos estáveis e auxílio material. Crescer depois da dor é uma possibilidade, não uma obrigação moral.
Não se deve exigir que alguém encontre imediatamente uma lição na morte de um familiar ou agradeça pela oportunidade de evoluir. Há momentos em que a atitude mais espiritual não é oferecer explicações, mas sentar ao lado, escutar e permanecer.
Rossandro Klinjey, ao falar sobre resiliência, recorda que força não significa suportar tudo silenciosamente. Em suas palavras:
“Ninguém atravessa uma tempestade que não tenha pelo menos uma mão para segurar.”
Essa compreensão aproxima a Psicologia da caridade. A resiliência não se constrói apenas dentro do indivíduo; ela nasce também das relações, da comunidade e da certeza de que ninguém precisará enfrentar sozinho aquilo que parece insuportável.
Viktor Frankl demonstrou que o ser humano pode encontrar sentido mesmo em condições extremamente adversas. Entretanto, encontrar sentido não significa considerar o sofrimento bom ou necessário. Significa impedir que ele se torne a única definição de nossa existência.
A dor não precisa ser glorificada para ser transformada.
Entre aquilo que cai e aquilo que permanece
A filosofia estoica, especialmente em Epicteto, convida-nos a distinguir aquilo que depende de nós daquilo que está fora de nosso controle. Não podemos controlar o movimento das placas tectônicas, a chegada de uma tempestade ou muitas das perdas que atravessam nosso caminho. Podemos, porém, decidir como responderemos a elas.
Podemos construir cidades mais seguras, fiscalizar obras, combater a corrupção que transforma materiais frágeis em prédios condenados, investir em prevenção, organizar equipes de emergência e auxiliar os desabrigados. Podemos escolher entre explorar o caos ou servir dentro dele.
O estoicismo não propõe frieza diante da dor. Propõe lucidez para não desperdiçarmos nossas forças tentando comandar o incontrolável enquanto abandonamos aquilo que está ao alcance de nossas mãos.
Um terremoto é natural. A ausência de planejamento não é.
Uma tempestade pode ser inevitável. O abandono dos pobres não é.
A morte faz parte da existência. A indiferença diante do sofrimento é uma escolha.
Haroldo Dutra Dias, ao refletir sobre a transição planetária, destaca que a transformação do planeta passa pela transformação íntima das pessoas. Em uma de suas exposições, sintetizou esse caráter coletivo:
“A viagem de um mundo de provas e expiações para um mundo de regeneração é uma viagem que fazemos juntos.”
Não existe regeneração individual cercada de miséria coletiva. Ninguém alcança um mundo melhor apenas por conhecer conceitos espirituais, frequentar templos ou repetir palavras bonitas. A transição acontece quando o conhecimento modifica nossas escolhas, o poder se converte em serviço e a fé se transforma em amparo.
Podemos falar durante horas sobre evolução espiritual e permanecer moralmente imóveis. Também podemos desconhecer qualquer doutrina e, ainda assim, carregar feridos, alimentar famintos e abrir nossa casa para desconhecidos. Talvez estes últimos já tenham compreendido, pelo coração, aquilo que muitos de nós ainda tentamos entender pelos livros.
Quando as fortalezas desmoronam
A destruição também nos mostra que nenhum império é eterno. Ditadores, governantes e homens poderosos costumam construir fortalezas como se paredes fossem capazes de protegê-los das consequências de seus atos e da passagem do tempo.
Entretanto, precisamos ter cuidado: terremotos não distinguem o palácio do governante da casa humilde. Seria desumano encontrar esperança no sofrimento de inocentes apenas porque, entre as ruínas, também caiu algum símbolo de poder.
O que deve ser destruído não são as pessoas, mas as estruturas de opressão. E essa destruição precisa acontecer pela educação, pela Justiça, pelo amadurecimento das instituições e pela transformação moral — nunca pela celebração da morte.
As ruínas dos antigos impérios estão espalhadas pelo mundo para nos lembrar de que todo poder material possui prazo de validade. Reis, generais e governantes que se julgavam indispensáveis hoje são nomes quase esquecidos. O povo permaneceu, a vida continuou e a história seguiu adiante.
Talvez a transição planetária também seja isso: a lenta compreensão de que governar não é ser servido, mas servir; que autoridade sem exemplo é apenas domínio; e que nenhuma nação será verdadeiramente forte enquanto seus habitantes forem tratados como instrumentos para sustentar privilégios.
O verdadeiro resgate
Milhares de pessoas desencarnam diariamente, cada uma encerrando uma etapa de sua jornada. Na perspectiva espírita, a morte não representa o desaparecimento do ser, mas seu retorno à dimensão espiritual. Ainda assim, não nos compete afirmar quando, como ou por que cada desencarnação foi estabelecida.
Também precisamos rever a ideia de que ajudamos as vítimas para “resgatar nossos débitos”. A caridade não deve transformar aquele que sofre em instrumento de nossa salvação pessoal. Não ajudamos alguém para acumular créditos no Céu, mas porque reconhecemos naquela pessoa a mesma dignidade que desejamos para nós.
Se existe resgate, talvez seja o resgate da nossa própria humanidade.
Quando oferecemos alimento, não apagamos mecanicamente uma dívida do passado; vencemos, no presente, a indiferença. Quando acolhemos uma família, não compramos méritos espirituais; aprendemos fraternidade. Quando tratamos um ferido, reconstruímos dentro de nós algo que o egoísmo havia destruído.
A caridade não é uma negociação com Deus. É a descoberta de que o sofrimento do outro também nos diz respeito.
Reflexão final
Depois de um terremoto, as pessoas procuram sobreviventes sob os escombros. Talvez precisemos realizar busca semelhante dentro de nós.
Quantos sentimentos bons estão soterrados sob a pressa? Quanta compaixão foi coberta pela ambição? Quantos sonhos honestos ficaram presos sob o peso das aparências? Quanto tempo desperdiçamos construindo uma imagem para o mundo enquanto nossa verdadeira identidade pedia socorro?
Há momentos em que a vida permite pequenos abalos, advertências delicadas, desconfortos capazes de corrigir nossa direção. Mas insistimos em reconstruir os mesmos erros sobre o mesmo terreno emocionalmente instável. Trocamos a pintura, reforçamos a fachada e ignoramos as rachaduras da consciência.
Até que um dia tudo treme.
Nem sempre será um terremoto geológico. Pode ser uma enfermidade, uma perda, uma decepção, o fim de uma carreira ou a descoberta de que conquistamos muitas coisas, mas nos afastamos de nós mesmos.
Quando isso acontecer, não precisaremos agradecer pela dor nem fingir que somos invulneráveis. Poderemos chorar, pedir ajuda e reconhecer nossa fragilidade. Mas também poderemos escolher o que será reconstruído e aquilo que, por não servir mais à nossa evolução, deverá permanecer entre as ruínas.
A esperança não consiste em acreditar que nenhuma tragédia acontecerá. Consiste em saber que a tragédia não possui poder para destruir tudo.
Enquanto houver alguém retirando uma pessoa dos escombros, haverá esperança. Enquanto uma família dividir o pouco que possui, haverá esperança. Enquanto médicos, bombeiros, voluntários, religiosos e desconhecidos trabalharem juntos, haverá esperança. Enquanto o ser humano ainda for capaz de se comover com a dor de quem nunca viu, a regeneração não será apenas uma promessa distante.
Talvez a transição planetária não aconteça diante de nossos olhos como um espetáculo vindo do céu. Talvez ela ocorra silenciosamente cada vez que escolhemos a honestidade em lugar da vantagem, o serviço em lugar do poder, a cooperação em lugar da disputa e o amor em lugar da indiferença.
O planeta não se tornará regenerado antes que comecemos a regenerar nossas relações.
A Terra pode tremer, as paredes podem cair e os impérios podem desaparecer. Mas aquilo que edificamos no espírito — conhecimento, bondade, coragem, fé e amor — não fica soterrado.
No final, a magnitude mais sublime não será aquela registrada pelos sismógrafos. Será a do abalo capaz de romper a crosta endurecida do nosso ego e abrir, no coração humano, espaço para a solidariedade.
E sempre que uma mão se estender para levantar outra, poderemos ter a certeza de que, apesar de toda a destruição, o mundo já começou a ser reconstruído.
Nova Venécia, 12 de agosto de 2026.
Muita paz,
Rafael Cremasco Lacerda
Referências bibliográficas
FRANCO, Divaldo Pereira. Pelo Espírito Manoel Philomeno de Miranda. Transição Planetária. Salvador: LEAL. Disponível em: Apple Books — Transição Planetária.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Parte Terceira, capítulo VI, questões 737 a 741: “Flagelos destruidores”. Disponível em: KardecPedia — Flagelos destruidores.
KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Capítulo V: “Bem-aventurados os aflitos”. Disponível em: KardecPedia — Capítulo V.
DIAS, Haroldo Dutra. “Transição Planetária”. Palestra disponibilizada pelo portal Espiritismo.tv. Disponível em: Espiritismo.tv — Transição Planetária.
FEDERAÇÃO ESPÍRITA DO DISTRITO FEDERAL. “A transição planetária é conduzida pelo amor”. Exposição de Haroldo Dutra Dias. Disponível em: FEDF — A transição planetária.
KLINJEY, Rossandro. “Resiliência é ter coragem de ir embora e dizer não”. Entrevista ao VivaBem, 24 jul. 2026. Disponível em: UOL VivaBem — Rossandro Klinjey sobre resiliência.
EPICTETO. Reflexões sobre liberdade, responsabilidade e o uso das impressões. Consultar: Stanford Encyclopedia of Philosophy — Epictetus.
FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido. Consultar: Penguin — Man’s Search for Meaning.
WORLD HEALTH ORGANIZATION. “Ensuring a coordinated and effective mental health response in emergencies”. Disponível em: OMS — Saúde mental em emergências.
AMERICAN PSYCHOLOGICAL ASSOCIATION. “Cognitive Processing Therapy”. Informações sobre trauma e tratamento do transtorno de estresse pós-traumático. Disponível em: APA — Cognitive Processing Therapy.
Fontes sobre os acontecimentos recentes
BRITISH RED CROSS. “Venezuela Earthquakes: what happened and how we’re helping”. Disponível em: Cruz Vermelha Britânica — Terremotos na Venezuela.
AL JAZEERA. “Twin earthquakes strike Peru”. Publicado em 19 jul. 2026. Disponível em: Al Jazeera — Terremotos no Peru.
REUTERS. “Colombia rescue efforts press on after quake”. Publicado em 11 ago. 2026. Disponível em: Reuters — Terremoto na Colômbia.