Capa da publicação: A Fascinação do Homem de Toga e a Justiça

1

5

A Fascinação do Homem de Toga e a Justiça

Quando homens de toga transformam a Justiça em espetáculo, a esperança adoece e quem jurou proteger passa a ser punido. Entre corrupção, influência espiritual e fé, surge a pergunta: devemos agir ou permanecer inertes?

Não podemos negar que estamos passando por uma grave crise moral! É inconcebível aceitar como normal o escárnio de grandes autoridades diante do cumprimento do dever. Vemos, nos noticiários e nas redes sociais, uma verdadeira zombaria de grandes autoridades vestidas de toga, falando ao mundo aberrações em linguagem rebuscada, totalmente alheias à realidade vivida pela população.

Há uma distorção colossal entre o que é moral e o que tais autoridades estão fazendo. Essa aberração está consumindo por completo a esperança de um futuro justo para todos e a confiança na Justiça brasileira.

Recordo-me que os reis,  na época medieval, faziam a própria justiça a bel-prazer, sem grandes preocupações com a reação dos súditos e vassalos. Hoje, a justiça continua sendo feita, muitas vezes, a bel-prazer; porém, criam-se narrativas, trocam-se algumas palavras por sinônimos e toda maldade passa despercebida. A Justiça continua, como antes, extremamente seletiva. Nunca fomos todos iguais perante a lei, essa premissa ficou apenas no papel, que aceita tudo, e em nosso imaginário infantil.

Apesar dessa consciência, o que me espanta é ver o estado de fascínio dos homens de toga, defendendo o indefensável para se protegerem das consequências da lei, chegando ao ponto de julgarem até os processos contra eles mesmos. Tal cena chega a ser aterrorizante, a ponto de pessoas comuns e líderes religiosos fazerem comparações com demônios e espíritos do mal. Realmente, a zombaria das autoridades é digna de comparação com o inferno.

Em O Livro dos Médiuns, capítulo XXIII, Allan Kardec explica que a fascinação é uma das formas de obsessão em que o espírito age sobre o pensamento do indivíduo e paralisa seu discernimento. O fascinado passa a enxergar o erro como acerto, a injustiça como justiça e a própria queda como se fosse uma demonstração de grandeza. É justamente isso que parece acontecer quando certas autoridades, cercadas pelo poder, já não conseguem reconhecer a gravidade das próprias decisões.

A convicção de que estão fazendo o certo é tamanha que parece que vivem embasados em alguma fantasia pessoal. São aficionados por narrativas inconscientes utilizadas para justificar o mal que fazem à sociedade em benefício próprio. São inconsequentes e não se importam com as vidas perdidas ou prejudicadas pelos criminosos, muitas vezes políticos e grandes autoridades.

Não há preocupação real; há apenas um grande teatro!

Essas pessoas malévolas plantam tudo de ruim na Terra. Todavia, o tempo não para e chegará a hora da colheita. Nessa hora, esses infelizes desejarão nascer em condições lamentáveis, inevitavelmente carregando na própria consciência o peso do mal que praticaram, para reparar os sofrimentos que causaram. Reparar os nossos erros faz parte da Lei de causa e efeito, no entanto, ela não é uma vingança de Deus, mas a consequência natural de nossas escolhas.

Como ensina Kardec em O Céu e o Inferno, a alma não se liberta do mal apenas porque abandona o corpo. O arrependimento, a expiação e a reparação fazem parte do caminho de retorno ao bem. Muitos desejarão esconder-se das milhares de almas sofredoras que deixaram pelo caminho, mas ninguém consegue esconder-se da própria consciência. O sofrimento provocado aos outros permanece como uma dívida moral até que seja reconhecido e reparado.

O invólucro carnal funciona como um escudo que nos impede de ter a visão e o sentido completos do mundo espiritual. Isso é uma bênção para as almas sofredoras encarnadas. Imaginemos como seria a situação de Hitler tendo de suportar, imediatamente, todos os espíritos que sofreram em razão das mortes e das dores que ele provocou direta e indiretamente. Por esse motivo, viver é sempre a melhor opção! Saber viver é melhor ainda!

A vida material é uma oportunidade concedida por Deus para o espírito aprender, expiar, cumprir sua missão e progredir. Mesmo quando a injustiça parece vencer, continuar vivendo significa conservar a possibilidade de reparar, lutar pelo bem e transformar a dor em consciência.

Não tenho dúvida de que, em meio ao escárnio das autoridades de toga, inclusive ministros do STF, há uma nuvem de espíritos malignos e sofredores, em uma espécie de simbiose espiritual, ditando e sugerindo comportamentos socialmente reprováveis. Os pensamentos inferiores atraem companhias inferiores, e os espíritos imperfeitos encontram ambiente favorável quando encarnados alimentam o orgulho, a ambição, o egoísmo e a crueldade.

Kardec esclarece que os espíritos influenciam nossos pensamentos e atos e que a afinidade entre eles se estabelece pela semelhança de pensamentos e sentimentos (O Livro dos Espíritos, questões 459 e 513). Nossos pensamentos e nossas ações definem quem está próximo de nós. Não espere Jesus Cristo ao seu lado guiando-o na prática do mal. Se alguém prejudica as demais pessoas ou a si mesmo na prática do mal, é certo que se cerca de espíritos sofredores que se comprazem com os mesmos pensamentos e sentimentos.

Uns se aproximam por conveniência e prazer; outros, por desejo de vingança. Em muitos casos, a vingança envolve outras almas encarnadas, que se tornam alvo por causa da invigilância. Almas invigilantes são facilmente manipuladas por espíritos ou por outras almas encarnadas, frequentemente utilizadas para influenciar alguém a cair em engodos e ciladas do mundo espiritual.

Somos todos imperfeitos, salvo Jesus, nosso modelo e guia nesta Terra. Allan Kardec apresenta Cristo como o tipo mais perfeito que Deus ofereceu à humanidade para servir de guia e modelo. Devemos, portanto, esforçar-nos para ser justos, apesar de toda a dificuldade que o mundo nos impõe.

Não é fácil ser honesto quando a maioria parece viver como mafiosos, perseguindo os justos que não fazem parte dos esquemas de corrupção. O homem correto é tratado como ingênuo, o denunciante é perseguido e aquele que se cala é considerado prudente. A inversão dos valores chegou a tal ponto que muitas pessoas passaram a ter vergonha de defender a verdade.

Se o homem tivesse consciência da vida futura e do plano espiritual, teria, no mínimo, temor de praticar o mal, agir com injustiça, perseguir inocentes ou desviar o dinheiro destinado à saúde, à educação e ao saneamento básico. A corrupção, quando não mata diretamente, destrói a saúde de milhares de pessoas. Em seus efeitos silenciosos, é pior que uma guerra, pois gera violência de forma indireta e atinge justamente aqueles que não têm como se defender.

Policiais morrem tentando manter as coisas sob controle, enquanto políticos e fanfarrões de toga alteram e interpretam as leis para prejudicar o serviço policial. Em contrapartida, facilitam o cometimento de crimes e a perpetuação do crime organizado. Quem está na rua conhece a consequência dessas decisões. Conhece o rosto das famílias que perderam seus filhos, dos comerciantes assaltados, das vítimas violentadas e dos criminosos que retornam às ruas para fazer novas vítimas.

Nós, policiais, estamos cada dia mais doentes, não apenas por causa da violência urbana e de todo o risco de morte, mas também por lutar diariamente para proteger uma sociedade que perdeu a noção do que é certo e do que é errado. O policial cumpre o seu dever e, ainda assim, é punido por fazer o certo por um sistema criado, de forma velada, para freá-lo e impedi-lo de fazer aquilo que jurou fazer: servir e proteger.

Não é diferente para o delegado, para o juiz de primeiro e segundo graus e para tantos outros profissionais que também sofrem quando o sistema exige responsabilidade, mas não oferece equilíbrio, segurança e apoio para o cumprimento da missão.

Ficamos doentes por não conseguirmos cumprir o nosso chamado. Dentro de cada um de nós há a essência espiritual criada por Deus, o amor infinito do Criador e o chamado da consciência para nos endireitarmos. Mesmo o ser humano que se tornou perverso não foi criado eternamente mau. Como ensina O Livro dos Espíritos, os espíritos são criados simples e ignorantes e destinados ao progresso; nenhum deles está condenado a permanecer eternamente no mal.

A consciência é o nosso freio e contrapeso. É ela que nos detém diante dos erros graves quando ninguém está nos vendo. “Onde está escrita a lei de Deus? — Na consciência”, responde Kardec na questão 621 de O Livro dos Espíritos. O problema é que muitos sufocam essa voz com o orgulho, o egoísmo, a ambição e a necessidade de preservar privilégios.

Aliás, nunca estamos sós de fato. Há uma multidão de espíritos que nos rodeia, observando-nos e influenciando-nos. Temos apenas a impressão de estarmos sós em determinados momentos da vida material. Nossos pensamentos revelam quem somos e permitem que espíritos semelhantes se aproximem de nós.

A grande questão que fica é: o que devemos fazer para mudar esse contexto triste de corrupção e injustiça que assola o Brasil?

Não devemos simplesmente permanecer na fé, inertes, esperando que Deus faça aquilo que depende de nós. A fé verdadeira não cruza os braços diante do sofrimento. Ela fortalece o homem para cumprir seu dever, resistir ao mal e fazer o bem mesmo quando todos ao redor parecem ter desistido.

Kardec ensina que não basta deixar de praticar o mal. É necessário fazer o bem dentro dos limites das próprias forças. Na questão 642 de O Livro dos Espíritos, encontramos a orientação: “cumpre-lhe fazer o bem no limite de suas forças”. E, na questão 643, a resposta é ainda mais clara: “Não há quem não possa fazer o bem”. Portanto, todos temos alguma responsabilidade na transformação do mundo.

Jesus não ensinou a passar ao largo do ferido. Na parábola do bom samaritano, um homem encontrou o próximo caído, aproximou-se, tratou suas feridas e assumiu a responsabilidade por sua recuperação. Ao final, Cristo ordenou: “Vai e procede tu de igual modo” (Lucas 10:25–37).

Devemos cumprir honestamente nossos deveres, proteger a vida, denunciar abusos pelos meios legítimos, exigir transparência, participar da vida pública, apoiar os vulneráveis e educar pelo exemplo. Nós, policiais, devemos continuar servindo e protegendo, mesmo quando o sistema tenta nos fazer acreditar que nosso trabalho não tem valor. Devemos apoiar os colegas adoecidos, preservar as provas dos abusos, rejeitar a corrupção e jamais permitir que a revolta nos transforme naquilo que combatemos.

O próprio Kardec perguntou por que os maus parecem dominar a sociedade. A resposta, na questão 932 de O Livro dos Espíritos, é profunda: “Os maus são intrigantes e audaciosos, os bons são tímidos. Quando estes o quiserem, preponderarão.” Os bons não podem continuar tímidos, calados e imóveis. A omissão também permite que o mal avance.

Isso não significa combater o mal com ódio. Jesus ensinou: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mateus 5:44). Amar o inimigo não é chamar a injustiça de justiça, abandonar as vítimas ou impedir a responsabilização. É lutar contra o erro sem permitir que o erro nos transforme em pessoas cruéis. O perdão cristão não elimina a reparação; elimina o desejo de vingança.

O verdadeiro homem de bem, segundo O Evangelho segundo o Espiritismo, defende o fraco contra o forte, mas não alimenta ódio, rancor ou desejo de vingança. Essa é a verdadeira força: enfrentar o abuso com coragem, defender os inocentes com firmeza e conservar o coração livre da maldade.

“Ajuda-te, que o céu te ajudará”, ensina Kardec em O Evangelho segundo o Espiritismo. Deus não abandona aqueles que trabalham pelo bem. Ele inspira, fortalece e abre caminhos, mas espera que utilizemos as mãos, a inteligência, a coragem e os recursos que nos foram concedidos.

Portanto, não devemos permanecer inertes. Devemos permanecer na fé enquanto agimos. A oração pode iluminar o caminho, mas são os nossos passos que precisam percorrê-lo. Se os bons permanecerem calados por medo, cansaço ou falsa resignação, os maus ocuparão todo o espaço.

Quando a consciência desperta e a vontade se transforma em trabalho, a esperança deixa de ser apenas uma espera e começa a se tornar realidade. É isso que Cristo nos pede: não a passividade, mas o serviço; não a vingança, mas a justiça; não o silêncio, mas a coragem de fazer o bem.

A fé não nos manda fechar os olhos diante da corrupção. Ela nos ensina a abri-los sem perder a humanidade, a denunciar sem odiar, a resistir sem nos corromper e a continuar trabalhando pelo bem, mesmo quando os homens de toga parecem ter esquecido o significado da Justiça.

 

Nova Venécia, 17 de setembro de 2026.

 

Muita paz,
Rafael Cremasco Lacerda

 

Referências bibliográficas

Doutrina Espírita

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Questões 114–121, 132, 459, 513, 621, 625, 642–643, 875, 877 e 932. Texto integral consultado em: KardecPedia – O Livro dos Espíritos.

KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns ou Guia dos Médiuns e dos Evocadores. Segunda parte, capítulo XXIII — Da obsessão, itens 237–239, 245 e 249. Texto integral consultado em: KardecPedia – O Livro dos Médiuns.

KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Capítulos XV — Fora da caridade não há salvação; XVII — Sede perfeitos; XXV — Buscai e achareis; e XXVII — Pedi e obtereis. Texto integral consultado em: KardecPedia – O Evangelho segundo o Espiritismo.

KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno ou a Justiça Divina segundo o Espiritismo. Primeira parte, capítulo VII — As penas futuras segundo o Espiritismo, especialmente o “Código penal da vida futura”. Texto integral consultado em: KardecPedia – O Céu e o Inferno.

Bíblia

BÍBLIA SAGRADA. Almeida Revista e Atualizada. Mateus 5:44 — amor aos inimigos e oração pelos perseguidores. Disponível em: Bible.com – Mateus 5:44.

BÍBLIA SAGRADA. Almeida Revista e Atualizada. Lucas 10:25–37 — a parábola do bom samaritano. Disponível em: Bible.com – Lucas 10:25–37.

Observação: a redação das citações pode variar conforme a tradução ou edição consultada. A numeração das questões de O Livro dos Espíritos e dos capítulos das obras de Kardec permanece a referência principal para localização.