PUBLICAÇÕES Incompreensões da Vida A culpa é DELE
É fácil culpar o Demônio, o próximo ou o destino pelos conflitos que criamos. Difícil é reconhecer a própria participação. Entre influência espiritual e livre-arbítrio, amadurecer começa quando trocamos a culpa pela responsabilidade.
Queria começar este texto dizendo algo como “certo dia”, remetendo a um acontecimento distante. Entretanto, os problemas não consultam o calendário antes de aparecer — principalmente quando envolvem seres humanos.
Com as máquinas, conseguimos prever, com razoável precisão, quando algo começará a funcionar de maneira anormal. Sensores, ruídos, temperatura e desgaste indicam a necessidade de manutenção preventiva. Já o ser humano, quando decide arrumar confusão, consegue superar qualquer diagnóstico técnico. Nem Deus impede — talvez porque respeite o livre-arbítrio que tanto desejamos, embora nem sempre tenhamos maturidade, responsabilidade e sabedoria para utilizá-lo.
Em O Livro dos Espíritos, Allan Kardec pergunta se o homem possui liberdade sobre os próprios atos. A resposta é direta:
“Pois que tem a liberdade de pensar, tem igualmente a de obrar. Sem o livre-arbítrio, o homem seria máquina.”
Se não somos máquinas, também não podemos transferir indefinidamente a responsabilidade pelo que escolhemos fazer.
Hoje fui pressionado a tomar uma decisão para resolver um problema que ainda não existia e que, muito provavelmente, jamais ocorreria. Decidi não agir naquele momento, mas apresentei opções caso a situação realmente viesse a acontecer.
A pessoa, contrariada, insistiu no assunto e exigiu uma atitude imediata. No entanto, não havia risco, dano ou urgência. Nesses casos, a antecipação não representa prudência; representa apenas sofrimento por encomenda. Criamos o problema na imaginação, sofremos antecipadamente e, depois, ainda procuramos alguém para responsabilizar pelo desconforto que nós mesmos produzimos.
Na polícia, eu ouvia frequentemente uma frase:
“A ânsia da morte é pior do que a própria morte.”
Com o tempo, percebi que não se tratava apenas de uma expressão dramática. A expectativa de um acontecimento pode ser mais angustiante do que o próprio acontecimento. Às vezes, tememos o impacto de uma bolinha de paintball como se estivéssemos diante de um projétil real. Quando finalmente somos atingidos, a adrenalina e o calor do momento diminuem a percepção da dor. O sofrimento antecipado, porém, já cumpriu sua função: transformou alguns segundos de realidade em vários minutos de aflição.
Foi exatamente o que aconteceu naquela discussão. A pessoa imaginou um problema, sofreu por algo que não havia ocorrido, provocou o desequilíbrio que temia e, ao final, culpou o Demônio.
Segundo ela, o Demônio estaria me usando para contrariá-la e instaurar o caos.
A situação seria cômica se não tivesse consumido toda a minha paciência com algo inútil. Ainda assim, precisei contrariá-la mais uma vez e explicar que o Demônio não tinha nada a ver com o problema que ela própria havia criado.
Coitado do Demônio. Trabalha em todas as partes do mundo, vinte e quatro horas por dia, sem férias, e ainda recebe a culpa por tudo: discussões familiares, derrotas no futebol, partidas perdidas de dominó, decisões equivocadas e até mensagens enviadas no momento da raiva.
Parece que ele é o único ser verdadeiramente onipresente nessa história.
Quando um time perde, a culpa é do árbitro, do técnico, do gramado ou do jogador que errou o passe. Nos esportes individuais, culpamos o vento, o sol, o fabricante da raquete e, se necessário, até o cadarço do tênis. Quase sempre encontramos uma explicação que preserve nossa vaidade e coloque o erro nas mãos de outra pessoa.
Jesus já havia chamado a atenção para essa tendência ao falar sobre o cisco no olho do próximo e a trave no nosso próprio olho. É muito mais confortável examinar as falhas alheias do que encarar aquilo que precisa ser corrigido dentro de nós.
Rossandro Klinjey, em suas reflexões sobre culpa e responsabilidade, estabelece uma distinção importante: a culpa, quando se transforma em punição permanente, paralisa; a responsabilidade, ao contrário, conduz ao aprendizado e à reparação.
Assumir a responsabilidade não significa viver se condenando. Significa reconhecer:
“Eu errei. Esta parte me pertence. O que posso fazer para reparar e agir de maneira diferente?”
A culpa sem transformação é apenas sofrimento. A responsabilidade possui verbos: reconhecer, corrigir, reparar e mudar.
O Demônio segundo o Espiritismo
Na perspectiva espírita, Satanás não é um ser criado eternamente para o mal nem uma força capaz de disputar poder com Deus. Kardec o apresenta como uma personificação alegórica do mal. Aqueles que tradicionalmente seriam chamados de demônios são compreendidos como Espíritos imperfeitos — consciências ainda ignorantes, moralmente inferiores, mas destinadas ao progresso.
Isso não significa que a influência espiritual não exista. Em O Livro dos Espíritos, na questão 459, Kardec pergunta:
“Influem os Espíritos em nossos pensamentos e em nossos atos?”
A resposta é clara:
“Mais do que imaginais, pois com bastante frequência são eles que vos dirigem.”
Entretanto, influência não significa domínio absoluto. Uma sugestão recebida não é uma ordem irrecusável. Um pensamento sugerido não é, necessariamente, um ato praticado.
Na questão 467, encontramos:
“Pode, visto que tais Espíritos só se apegam aos que, pelos seus desejos, os chamam, ou aos que, pelos seus pensamentos, os atraem.”
A afinidade moral facilita determinadas influências, mas a vontade continua desempenhando papel fundamental. Por isso, na questão 469, a orientação para neutralizar influências inferiores é simples: praticar o bem, confiar em Deus e rejeitar pensamentos que alimentem discórdia, orgulho e paixões destrutivas.
Portanto, mesmo quando recebemos uma sugestão espiritual negativa, ainda nos cabe decidir se iremos acolhê-la. O Espírito pode sugerir a raiva, mas a palavra ofensiva sai de nossa boca. Pode estimular a discórdia, mas somos nós que escolhemos continuar a discussão. Pode alimentar o orgulho, mas somos nós que recusamos reconhecer o erro.
Culpar exclusivamente o mundo espiritual é retirar de nós mesmos o livre-arbítrio que a doutrina procura preservar.
Nem tudo é culpa da vítima
Costumamos dizer que colhemos exatamente aquilo que plantamos. Entretanto, essa afirmação precisa ser tratada com muito cuidado.
Existem, sim, pessoas vitimadas pela violência, pela mentira, pela negligência, pela injustiça e pelas escolhas cruéis de outras pessoas. A lei de causa e efeito não pode ser transformada em instrumento para julgar quem sofre.
Nem todo sofrimento pode ser explicado por quem observa de fora. Há consequências de escolhas atuais, experiências relacionadas ao passado espiritual, acontecimentos coletivos e, sobretudo, efeitos do livre-arbítrio alheio. Não possuímos conhecimento suficiente para determinar a origem de cada dor.
Diante do sofrimento de alguém, a pergunta cristã não deveria ser:
“O que essa pessoa fez para merecer isso?”
A pergunta deveria ser:
“O que posso fazer para ajudá-la?”
O Espiritismo nos convida a examinar a nossa responsabilidade, não a elaborar sentenças sobre a vida dos outros. Se a lei de causa e efeito for utilizada sem caridade, ela se transforma apenas em outra forma de condenação.
Emmanuel, por meio da psicografia de Francisco Cândido Xavier, escreveu em Pensamento e Vida:
“Somos hoje herdeiros positivos dos reflexos de nossas experiências de ontem, com recursos para alterar-lhes a direção à verdadeira felicidade.”
Somos herdeiros do passado, mas não seus prisioneiros. As experiências anteriores influenciam o presente, porém ainda possuímos recursos para mudar a direção de nossa vida.
Na obra O Ser Consciente, psicografada por Divaldo Pereira Franco e atribuída a Joanna de Ângelis, o amadurecimento psicológico aparece ligado ao autoconhecimento e à responsabilidade pessoal. Enquanto projetamos nos outros aquilo que não desejamos reconhecer em nós, permanecemos presos a mecanismos infantis de defesa. Crescer interiormente exige olhar para a própria participação nos conflitos.
Esse é provavelmente um dos exercícios mais difíceis da existência.
É fácil perceber quando o outro exagerou. Difícil é reconhecer que poderíamos ter falado com mais serenidade.
É fácil condenar a impaciência alheia. Difícil é admitir que também perdemos a nossa.
É fácil afirmar que alguém provocou a discussão. Difícil é perceber o momento em que decidimos continuar nela.
Na questão 919 de O Livro dos Espíritos, ao perguntar qual seria o método mais eficaz para o aprimoramento moral, Kardec recebe uma orientação conhecida:
“Conhece-te a ti mesmo.”
A proposta é examinar diariamente a própria consciência, recordar as atitudes tomadas e perguntar se alguém teve motivos para se queixar de nós. Não se trata de alimentar culpa ou autopunição, mas de identificar aquilo que ainda precisa ser corrigido.
Talvez essa revisão diária devesse começar com uma pergunta muito simples:
“Qual foi a minha participação nisso?”
Nem sempre seremos responsáveis pelo início de um problema. Contudo, podemos ser responsáveis pela maneira como reagimos, pelas palavras que acrescentamos e pelo tempo durante o qual decidimos alimentá-lo.
Reflexão final
Talvez a humanidade comece a amadurecer quando parar de terceirizar os próprios erros.
Enquanto a culpa for sempre do Demônio, do vizinho, do árbitro, do governo, da família, do colega ou do fabricante do tênis, não haverá motivo para mudar. Afinal, se o erro pertence inteiramente ao outro, toda correção também dependerá dele.
Assumir responsabilidade não é carregar o mundo nas costas nem aceitar culpas que não nos pertencem. É separar honestamente aquilo que não estava sob nosso controle da parte que nasceu de nossas decisões.
Não controlamos tudo o que acontece ao nosso redor. Não podemos impedir todas as injustiças, prever todas as reações ou administrar a consciência de outras pessoas. Mas podemos escolher aquilo que faremos com o que nos acontece.
Talvez seja hora de devolver ao Demônio algumas das culpas que colocamos em sua conta. Não por caridade com ele, mas por honestidade conosco.
Quando reconhecemos “essa parte foi minha”, recuperamos também o poder de transformá-la.
Porque, enquanto a culpa for sempre DELE, a mudança jamais será nossa.
Nova Venécia, 1º de agosto de 2026.
Muita paz,
Rafael Cremasco Lacerda
Referências bibliográficas
BÍBLIA SAGRADA. Evangelho de Mateus, 7:3-5. Disponível em: Bíblia Online.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Questões 128 a 131 — Anjos e demônios. Disponível em: KardecPedia.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Questões 459, 467 e 469 — Influência dos Espíritos sobre os pensamentos e atos. Disponível em: KardecPedia.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Questão 843 — Livre-arbítrio. Disponível em: KardecPedia.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Questão 919 — Conhecimento de si mesmo. Disponível em: KardecPedia.
KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Capítulo V — Bem-aventurados os aflitos. Disponível em: KardecPedia.
KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Capítulo X — Não julgueis para não serdes julgados. Disponível em: KardecPedia.
XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. Pensamento e Vida. Brasília: Federação Espírita Brasileira. Disponível em: FEB Editora.
FRANCO, Divaldo Pereira. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. O Ser Consciente. Salvador: LEAL. Disponível em: Livraria Boa Nova.
KLINJEY, Rossandro. Culpa ou responsabilidade? Reflexão em vídeo. Disponível em: YouTube.