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Homossexualidade e o destino do Brasil

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O futuro do Brasil exige mais do que afinidade com uma pauta. Uma reflexão crítica sobre o uso eleitoral da sexualidade, a coerência entre fé e conduta e a responsabilidade de colocar o bem comum em primeiro lugar.

O Brasil atravessa um momento decisivo nestas eleições presidenciais. No segundo turno, cidadãos de diferentes classes sociais, convicções políticas e crenças religiosas escolherão entre Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva. Essa decisão exige que se examinem propostas, trajetórias e consequências para toda a população. Preocupa-me, porém, a tentativa de colocar a pauta sexual acima de questões fundamentais para o futuro do país, como segurança, educação, saúde, responsabilidade econômica e combate à corrupção.

Hoje, ao acompanhar os stories de um médico e palestrante conhecido no meio espírita, percebi inicialmente uma preocupação legítima com a participação do eleitor. Ele procurava convencer as pessoas a não votar em branco ou anular o voto. Concordo com a importância de participar dessa escolha. Votos brancos e nulos ficam fora da contagem dos votos válidos; assim, quem escolhe uma dessas opções deixa a definição do vencedor aos eleitores que votam em algum candidato.

O que me surpreendeu foi o rumo das publicações seguintes. Nos stories a que assisti, o médico associava Flávio Bolsonaro a acusações que, na forma como foram apresentadas, não me pareceram suficientemente demonstradas. Ao mesmo tempo, não vi o mesmo rigor na análise de Lula e de seu histórico político. Minha crítica está nessa seletividade: cobrar responsabilidade de um lado e poupar o outro compromete a credibilidade de qualquer apelo ao voto consciente.

Minha oposição a Lula não se resume a uma questão de simpatia pessoal. Considero indispensável avaliar os episódios de corrupção que atingiram os governos petistas, as escolhas econômicas e as alianças construídas para a manutenção do poder. O mensalão, por exemplo, resultou em condenações de dirigentes do PT por corrupção ativa. Esse histórico não pode desaparecer do debate porque determinado candidato se apresenta como defensor de uma causa com a qual parte do eleitorado se identifica.

Também considero relevantes os debates sobre aborto, drogas, família e liberdade religiosa. Minha posição é de defesa da vida e dos valores cristãos, e espero coerência de quem se apresenta publicamente como divulgador desses princípios. Essa coerência precisa aparecer tanto nas ideias defendidas quanto nos critérios utilizados para apoiar um projeto político.

No último story, segundo minha leitura, o médico fez um chamado à comunidade LGBTQIAPN+ em favor de Lula, apresentando Flávio Bolsonaro como uma ameaça ao grupo. Foi nesse ponto que minha discordância se tornou mais profunda. Não considero responsável transformar a orientação sexual ou a identificação com uma pauta em critério decisivo de voto, deixando em segundo plano a avaliação do conjunto das propostas e da conduta dos candidatos.

A defesa da dignidade das pessoas LGBTQIAPN+ faz parte do bem comum. O que contesto é utilizá-la como justificativa para conceder um cheque em branco a um político. A segurança de quem sai para trabalhar, o atendimento de quem espera por uma consulta, o futuro das crianças e o uso honesto dos recursos públicos também dizem respeito a essas pessoas. Ninguém vive apenas de sua identidade; todos dependemos de uma sociedade que funcione.

A Bíblia oferece uma orientação que considero pertinente a essa reflexão:

“Ninguém busque o proveito próprio; antes, cada um, o que é de outrem.”

— 1 Coríntios 10:24, Almeida Revista e Corrigida.

Ao trazer esse ensinamento para a discussão política, entendo que nossas escolhas precisam considerar o próximo e as consequências coletivas. Não aceito que a defesa de uma pauta sirva para relativizar a corrupção, minimizar a violência ou dispensar um governante de prestar contas. A afinidade com uma causa não substitui a honestidade, a competência e a responsabilidade.

A vida íntima de cada pessoa merece respeito. Heterossexuais e homossexuais devem observar o respeito mútuo e as regras de convivência, sem que a orientação sexual de alguém determine seu valor moral. Da mesma forma, discordar de uma proposta política ligada à sexualidade não significa, por si só, desrespeitar as pessoas que a defendem. Precisamos preservar a possibilidade de discutir prioridades sem transformar toda divergência em hostilidade pessoal.

Esse raciocínio também se aplica à cor da pele, à religião, à profissão ou à origem social. Nenhuma dessas características, isoladamente, comprova a capacidade de alguém para governar. Seria incoerente condenar um comportamento no adversário e tolerá-lo no aliado apenas porque ele representa uma identidade ou promete atender a um interesse específico. O rigor que cobro na avaliação de Lula também precisa orientar minha análise de Flávio Bolsonaro.

No Evangelho de Mateus, Jesus ensina: “Por seus frutos os conhecereis” (Mateus 7:16). Vejo nessa passagem um convite a examinar a conduta e os resultados, para além dos discursos. Aplicado à vida pública, esse critério exige observar o que um político fez, como exerceu o poder e quais consequências suas decisões produziram.

Também me incomoda quando o prestígio adquirido no ambiente religioso é utilizado para dar a uma preferência partidária a aparência de superioridade moral. Um médico ou palestrante tem o direito de manifestar sua posição política. Seu diploma, sua eloquência e sua presença em tribunas religiosas, entretanto, não tornam suas conclusões incontestáveis. Quem o acompanha continua responsável por pensar, examinar e decidir por si mesmo.

Em Vinha de luz, no capítulo 83, “Examinai”, Emmanuel, pela psicografia de Francisco Cândido Xavier, afirma que “é justo, porém, que o ouvinte apenas retenha o que reconheça útil e melhor”. Entendo essa orientação como um chamado ao discernimento: admirar alguém não nos obriga a aceitar suas interpretações políticas nem a entregar a essa pessoa a direção de nossa consciência.

Defendo a família, a liberdade religiosa, a responsabilidade nas relações e os princípios cristãos. Também defendo o direito de questionar projetos políticos que considero prejudiciais ao país. Não quero uma convivência sustentada pelo silêncio diante do que considero errado. Quero a liberdade de me posicionar com firmeza, apresentar razões e cobrar coerência.

Essa firmeza também exige responsabilidade moral. Em O Evangelho segundo o Espiritismo, Allan Kardec escreve:

“O verdadeiro homem de bem é o que cumpre a lei de justiça, de amor e de caridade, na sua maior pureza.”

— Capítulo XVII, item 3, “O homem de bem”.

Esse ensinamento exige que a indignação permaneça comprometida com a verdade e com o respeito ao próximo. Criticar a corrupção, a impunidade e o uso eleitoral das causas sociais não nos dispensa de examinar os fatos com honestidade. A coerência que exigimos dos outros também precisa estar presente em nossas próprias palavras.

Não é tempo de omissão. Precisamos nos posicionar contra a corrupção, contra a instrumentalização da fé e contra as ideologias que colocam a conveniência partidária acima da responsabilidade com o país. Não dá mais para passar pano no que está errado apenas para preservar alianças, agradar pessoas influentes ou evitar discussões incômodas.

Ao escolher um presidente, não estamos decidindo apenas qual discurso nos representa. Estamos confiando a alguém decisões que alcançarão milhões de pessoas, inclusive aquelas que pensam de maneira diferente da nossa. É por isso que me oponho à prioridade dada à pauta sexual quando ela obscurece a avaliação do bem comum. O voto precisa carregar a responsabilidade por esse futuro coletivo. Nossa consciência não pode terminar onde acaba o interesse do grupo ao qual pertencemos.

 

Nova Venécia, 08 de outubro de 2026.

 

Tenhamos responsabilidade,
Rafael Cremasco Lacerda

 

 

Referências bibliográficas e fontes

  1. TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT) vão disputar o 2º turno para a Presidência da República. 5 out. 2026. Consultar fonte.

  2. TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. Manual do Eleitor: veja como se preparar para a votação. 24 set. 2026. Seção sobre votos brancos e nulos. Consultar fonte.

  3. SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. AP 470: STF fixa penas do núcleo político e inicia análise de dosimetria quanto ao núcleo financeiro. 12 nov. 2012. Referência ao registro histórico das condenações por corrupção ativa. Consultar fonte.

  4. BÍBLIA SAGRADA. 1 Coríntios 10:24. Almeida Revista e Corrigida, disponível entre as versões apresentadas na página. Ler o versículo.

  5. BÍBLIA SAGRADA. Mateus 7:16. Almeida Revista e Corrigida 2009. Ler o versículo.

  6. XAVIER, Francisco Cândido. Vinha de luz. Pelo Espírito Emmanuel. Capítulo 83, “Examinai”. FEB. Ler o capítulo.

  7. KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Capítulo XVII, item 3, “O homem de bem”. Texto disponível na KardecPedia. Ler o trecho.