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Discord e o desencarne do policial
Quando uma tragédia acontece, procuramos um culpado: o aplicativo, a arma, o governo ou o outro. Mas e se o verdadeiro problema estiver justamente em nossa recusa de assumir a parte que nos cabe?
Discord é um aplicativo de comunicação que virou pauta de discussão no Brasil após ser utilizado na prática de um crime contra a vida de uma menina. A ocorrência acendeu o debate sobre quem deveria ser responsabilizado pelo que aconteceu.
Nesse mesmo período, um policial desencarnou durante a abordagem a um foragido em Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, cidade natal do cantor Roberto Carlos.
No caso envolvendo o Discord, a primeira-dama Janja responsabilizou o aplicativo pelo crime e pediu o seu bloqueio no Brasil. Foi uma manifestação precipitada, movida pela indignação do momento, antes que todas as responsabilidades fossem devidamente apuradas.
Não pretendo entrar nos detalhes da investigação, pois meu objetivo não é transformar este texto em uma matéria policial. O ponto que me interessa é outro: a facilidade que temos de culpar uma ferramenta para evitar o desconforto de analisar as responsabilidades humanas.
As informações divulgadas indicaram que os envolvidos utilizavam diferentes meios de comunicação. Portanto, bloquear apenas uma plataforma não eliminaria o grupo, sua intenção criminosa nem sua capacidade de migrar para outro aplicativo.
O Discord foi um meio. Não foi a consciência que planejou o crime.
A ideia de culpar exclusivamente a ferramenta é o caminho mais fácil, porém incorreto e ilógico. Dessa forma, terceirizamos a responsabilidade dos criminosos, dos pais que não acompanharam devidamente seus filhos, do governo que não ofereceu condições adequadas às escolas, das instituições que falharam na prevenção e das leis que, muitas vezes, não conseguem acompanhar a velocidade com que os crimes se desenvolvem no mundo digital.
Isso não significa que as plataformas estejam livres de responsabilidade. Elas devem possuir sistemas de denúncia, mecanismos de proteção e condições para cooperar com as autoridades. O próprio ECA Digital estabelece que a proteção de crianças e adolescentes é uma responsabilidade compartilhada entre família, sociedade, Estado e plataformas.
Responsabilidade compartilhada, entretanto, não significa que ninguém seja responsável. Significa que cada um deve assumir a parte que lhe cabe.
Nelson Mandela afirmou:
“A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo.”
Talvez seja justamente essa arma que esteja faltando em muitas casas, escolas, instituições e gabinetes públicos.
Culpar a ferramenta de comunicação e exigir que ela controle e previna todos os crimes significaria pedir que a plataforma monitorasse, em tempo real, toda e qualquer conversa. Além de extremamente custoso, isso abriria caminho para a espionagem e a violação da privacidade de milhões de pessoas inocentes.
Não podemos aceitar que, em nome da proteção, todo cidadão seja tratado como criminoso em potencial.
Uma coisa é exigir medidas de segurança, canais de denúncia e resposta rápida. Outra completamente diferente é vigiar permanentemente cada conversa privada realizada no país.
Culpar exclusivamente a ferramenta seria quase o mesmo que culpar a boca da pessoa, pois o mal foi praticado por meio das palavras utilizadas pelos criminosos, não pelo instrumento que reproduziu a voz.
Por essa ótica, quando alguém mata usando uma arma, a culpa seria da arma. No entanto, sabemos que ela, salvo algum defeito ou acidente, não mata ninguém sozinha.
Afinal, qualquer coisa pode ser utilizada para tirar uma vida, inclusive nossos braços e pernas, e nem por isso pedimos a amputação dos membros das pessoas. Em determinados países, principalmente sob legislações extremistas, práticas semelhantes ainda são admitidas em situações específicas — não que isso seja certo.
Enquanto se discutia o que a primeira-dama pensava sobre o Discord, um dos nossos policiais morreu durante uma abordagem a um criminoso foragido da Justiça.
O policial estava em serviço, cumprindo o juramento de proteger a sociedade mesmo com o risco da própria vida. Durante a ocorrência, o criminoso conseguiu tomar sua arma e tirar sua vida. Na reação, o outro policial presente conseguiu eliminar o assassino.
Infelizmente, nosso herói não resistiu.
Onde quero chegar com tudo isso?
Estamos em época de disputa política. Nesse período surgem inúmeras promessas fantasiosas e mirabolantes, quase sempre aproveitando as desgraças humanas como palco para angariar votos.
O problema é que poucas dessas tragédias são realmente estudadas e levadas a sério.
Políticos falam rapidamente porque precisam ocupar o espaço da notícia. Apresentam uma resposta antes de compreenderem a pergunta. Escolhem um culpado antes de examinarem os fatos e anunciam uma solução antes mesmo de saberem qual é o problema.
Pela mesma lógica simplista utilizada contra o Discord, alguém poderia culpar a arma do policial por ter sido utilizada contra ele. Poderia dizer que faltou uma trava biométrica capaz de reconhecer apenas a mão do policial.
Ainda assim, a tecnologia não resolveria todas as possibilidades. Há situações em que o criminoso consegue utilizar a arma enquanto ela ainda está na mão do policial. Nenhum equipamento substitui completamente o treinamento, o efetivo adequado, o preparo físico, a inteligência e os protocolos de segurança.
Veio à memória alguns debates sobre a existência de projetos do governo para ensino de artes marciais em unidades prisionais. Será adequado ensinar técnicas de luta a criminosos em processo de recuperação? Não estaríamos tornando criminosos ainda mais letais? Não seria mais prudente priorizar livros, cursos profissionalizantes, educação formal, trabalho interno e formação moral?
Na cultura japonesa existe o conceito de hansei, que representa a autorreflexão sincera. Não se trata apenas de admitir que algo deu errado, mas de procurar honestamente a própria participação no erro.
Depois do hansei, surge o kaizen, o aperfeiçoamento contínuo. Não basta reconhecer a falha: é preciso mudar o comportamento para que ela não se repita.
No Brasil, fazemos quase o contrário. Quando alguma coisa dá errado, nossa primeira pergunta costuma ser:
— Quem foi o culpado?
Raramente perguntamos:
— O que eu poderia ter feito diferente?
Harry Truman, um dos presidentes mais importantes dos Estados Unidos, mantinha sobre sua mesa uma placa com a frase:
“A responsabilidade termina aqui.”
A mensagem era simples: quem ocupa uma posição de comando não pode transferir eternamente as próprias responsabilidades.
Aqui, entretanto, a responsabilidade nunca termina. Ela é empurrada de gabinete em gabinete até desaparecer.
O governo culpa o governo anterior.
O político culpa a oposição.
A oposição culpa o governo.
Os pais culpam a escola.
A escola culpa os pais.
A sociedade culpa a polícia.
A polícia culpa as leis.
O Judiciário culpa o Legislativo.
O criminoso culpa a sociedade.
E, no final, o Discord e a arma do policial tornam-se os grandes vilões da história.
Percebo que estão buscando culpados para erros grotescos de administração cometidos em nosso país, enquanto novos erros continuam sendo produzidos. Nada é realmente resolvido. A carroça permanece na frente dos bois e a realidade continua sendo distorcida para atender às conveniências do momento.
Por outro lado, políticos tentam conquistar a aprovação do eleitorado com promessas apresentadas sem estudos ou responsabilidade.
O senador Flávio, por exemplo, defendeu a possibilidade de conceder a Carteira Nacional de Habilitação aos jovens a partir dos 16 anos. A proposta foi relacionada à redução da maioridade penal, embora nem sequer constasse formalmente do plano de governo apresentado naquele momento.
Outra ideia popular lançada antes de uma discussão séria.
Colocar um veículo automotor nas mãos de alguém exige muito mais do que habilidade para conduzir. Exige maturidade emocional, responsabilidade civil, conhecimento das leis, capacidade de prever riscos e consciência das consequências.
Não se pode reduzir um assunto tão complexo a uma promessa eleitoral.
Aos 16 anos, o jovem já pode votar facultativamente. Pode trabalhar, respeitadas as limitações legais, e pode atuar como aprendiz desde os 14. Ao mesmo tempo, a legislação ainda não lhe permite obter a habilitação comum para dirigir.
O problema não está apenas na idade. Está na incoerência.
Quando interessa conquistar o voto do jovem, ele é considerado maduro para participar das decisões políticas do país. Quando interessa protegê-lo das consequências de determinados atos, ele volta a ser tratado como alguém sem plena capacidade de responsabilidade.
Querem antecipar direitos sem discutir, com a mesma seriedade, os deveres correspondentes.
A conta não fecha.
Essa ignorância atrapalha a lógica humana. Falta responsabilidade, verdade e comprometimento. Falta coragem para dizer que determinadas propostas são ruins, mesmo quando conseguem aplausos e votos.
Na visão espírita, o livre-arbítrio não elimina a responsabilidade. Pelo contrário: quanto maior a liberdade de escolha, maior é o compromisso com as consequências da escolha realizada.
Emmanuel, pela psicografia de Francisco Cândido Xavier, escreveu em Pensamento e Vida:
“Somos, assim, responsáveis pela nossa ligação com as forças construtivas do bem ou com as forças perturbadoras do mal.”
A influência externa pode existir, mas não apaga completamente nossa participação. Podemos receber sugestões, pressões e estímulos, porém somos responsáveis pela maneira como reagimos a eles, de acordo com o nosso discernimento e nossa condição moral.
Joanna de Ângelis, pela psicografia de Divaldo Pereira Franco, ensina:
“Toda e qualquer atividade que se assume converte-se num dever que exige responsabilidade.”
Assumir responsabilidade não significa viver atormentado pela culpa.
A culpa apenas nos mantém olhando para o erro. A responsabilidade nos obriga a olhar para a reparação.
Quem apenas se culpa pode permanecer parado. Quem se responsabiliza precisa agir.
É muito fácil exigir responsabilidade dos governantes, dos criminosos, das plataformas, dos policiais, dos professores e dos pais. Difícil é observar a própria vida e reconhecer quantas vezes também inventamos desculpas para nossos erros.
Se chegamos atrasados, foi culpa do trânsito.
Se perdemos uma partida, foi culpa do companheiro, do juiz, do campo ou do fabricante do tênis.
Se fracassamos em um projeto, foi culpa da falta de apoio.
Se fomos grosseiros, foi porque alguém nos provocou.
Se tomamos uma decisão errada, foi porque nos aconselharam mal.
Sempre existe um culpado disponível quando não queremos olhar para dentro.
O hansei japonês nos convida justamente a realizar esse movimento: parar de observar apenas o erro do outro e examinar honestamente a nossa própria conduta.
O kaizen nos ensina a dar o passo seguinte: melhorar um pouco a cada dia.
Talvez seja disso que o Brasil mais precise. Menos discursos grandiosos e mais aperfeiçoamento contínuo. Menos culpados escolhidos antecipadamente e mais responsabilidades assumidas. Menos promessas eleitorais e mais soluções construídas com estudo, prudência e verdade.
O desencarne do policial não pode servir apenas como combustível político.
A morte de uma menina não pode ser utilizada apenas como justificativa para bloquear uma ferramenta.
São vidas humanas, não argumentos eleitorais.
O criminoso deve responder pelo crime. A plataforma deve responder pelas falhas que forem comprovadas. Os pais precisam assumir seus deveres. O Estado deve reconhecer suas omissões. Os governantes devem pensar antes de falar. E cada cidadão precisa abandonar a confortável posição de espectador inocente de todos os problemas do mundo.
Enquanto a culpa for sempre do outro, nada será corrigido.
O Discord continuará sendo culpado.
A arma do policial continuará sendo a vilã.
Os políticos continuarão procurando alguém para responsabilizar.
E nós continuaremos repetindo os mesmos erros, apenas trocando os nomes, os aplicativos, as armas e os discursos.
A responsabilidade começa no momento em que paramos de perguntar apenas “quem fez isso?” e passamos também a perguntar:
O que eu poderia ter feito, o que posso corrigir e qual é a parte que me cabe?
Nova Venécia, 16 de agosto de 2026.
Muita paz,
Rafael Cremasco Lacerda
Referências bibliográficas e documentais
AGÊNCIA NACIONAL DE PROTEÇÃO DE DADOS. Processo de fiscalização sobre a proteção de crianças e adolescentes no Discord. 2026.
A GAZETA. Soldado da PM morre durante operação policial em Cachoeiro de Itapemirim. 2026.
A GAZETA. Apuração sobre as informações envolvendo jiu-jítsu e o sistema prisional capixaba. 2025.
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.
BRASIL. Lei nº 9.503, de 23 de setembro de 1997 — Código de Trânsito Brasileiro.
BRASIL. Lei nº 12.965, de 23 de abril de 2014 — Marco Civil da Internet.
BRASIL. Lei nº 15.211, de 17 de setembro de 2025 — ECA Digital.
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FOLHA DE S.PAULO. Flávio Bolsonaro defende a concessão da CNH a partir dos 16 anos. 2026.
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MINISTÉRIO DA JUSTIÇA E SEGURANÇA PÚBLICA. ECA Digital e responsabilidade compartilhada.
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TRUMAN PRESIDENTIAL LIBRARY. “The Buck Stops Here” — Harry Truman.
XAVIER, Francisco Cândido. Pelo Espírito Emmanuel. Pensamento e Vida. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1958. Catálogo da FEB.