PUBLICAÇÕES Histórias Reais A Família de Fachada
Entre discursos religiosos e aparências de perfeição, muitas famílias escondem feridas profundas dentro de casa. Quando falta amor, a fé vira fachada e os laços familiares se transformam em silêncio, dor e hipocrisia.
A minha família sempre foi disfuncional e, por isso, eu sempre analisava as outras famílias buscando aquilo que faltava na minha. Algumas podiam ser julgadas piores que a minha; outras, perfeitas até demais. Mas o tempo sempre mostrava a verdade: todas tinham suas mazelas e feridas a serem tratadas, como um hospital dentro de cada casa.
Dentre todos os problemas que uma família pode ter, o que mais me chama a atenção é a falta de amor. E, quando digo amor, refiro-me a tudo o que essa ausência causa. Quando falta amor, os pais criam distinção entre os filhos, destratam, desprezam, ofendem, agridem; isso quando não fazem coisas ainda piores com os próprios familiares.
Em um país que se diz pautado pela igualdade entre os homens, vê-se tanta injustiça e indiferença dentro do próprio seio familiar. Tenho um parente que sempre se engrandeceu por estar presente na igreja, ajudando as pessoas com orações e falando da Bíblia; contudo, sempre foi ignorante e sem educação com a própria família. Sempre fez distinção entre os filhos, deixando inclusive um sem nada e outro com quase tudo. Sua resposta era simples: “O dinheiro é meu e faço o que quiser!”.
Enchia a boca para falar sobre moralidade às pessoas e massagear o próprio ego em busca de reconhecimento. Afinal, havia falhado completamente na criação dos filhos e não praticava aquilo que pregava. Em suas orações de cura, algumas pessoas diziam ter recebido a cura; outras não, inclusive eu. A alegação era simples: era preciso ter fé para obter a cura. Jesus também disse algo parecido: “A tua fé te curou”. Mas nunca foi ele o curador, e sim a fé das pessoas; o meu parente apenas recebia um mérito que nunca foi dele.
Assim como o padre descrente que entrega uma hóstia ao fiel ou o trabalhador espírita que oferece uma água fluidificada, tudo depende da fé e da disposição íntima de quem recebe para que haja êxito no processo de cura. Como ensinava Allan Kardec, “fora da caridade não há salvação”, demonstrando que o verdadeiro valor espiritual não está nas aparências, mas nas atitudes e no amor praticado silenciosamente.
Esse parente apenas fez o mesmo trabalho que uma estátua de sal: nada. Aliás, com suas atitudes de desprezo e ignorância, afastou parte da família da igreja, pois muitos enxergaram um “monstro” dentro de casa que vivia na igreja; logo, concluíram que a religião, por si só, não estava transformando ninguém.
Esse comportamento dos hipócritas, outrora chamados por Jesus de “sepulcros caiados” — lindos por fora e podres por dentro — tem destruído a credibilidade das religiões e afastado os fiéis. Muitos dos que buscam os holofotes acabam sendo os primeiros a sucumbir às tentações do mundo em suas próprias fraquezas.
O filósofo Sócrates dizia que “uma vida não examinada não vale a pena ser vivida”. Talvez um dos maiores problemas do ser humano seja justamente apontar os erros alheios sem jamais enfrentar os próprios defeitos. Já Friedrich Nietzsche alertava que “aquele que combate monstros deve cuidar para não se tornar também um monstro”. Muitas vezes, as pessoas passam tanto tempo construindo uma imagem pública de bondade que se esquecem de cultivar virtudes dentro da própria casa.
Al Capone também ia à igreja aos domingos e mantinha uma vida de fachada. Muitos fazendeiros ricos construíram suas fortunas cometendo crimes brutais, além do passado sombrio da escravidão dos negros. Até hoje, famílias se destroem por terras e heranças, enquanto frequentam templos como se nada tivesse acontecido.
Infelizmente, não posso dizer tudo o que sei. Mas todos nós iremos colher aquilo que plantamos, pois a semeadura é opcional, mas a colheita é obrigatória. O próprio Espiritismo ensina, através da lei de causa e efeito, que nenhuma ação fica sem consequência. Mais cedo ou mais tarde, cada consciência se encontrará diante da verdade de si mesma.
Reflexão Final
Talvez a maior tragédia não seja a existência de famílias imperfeitas, porque todas são. A verdadeira tragédia acontece quando as pessoas preferem sustentar uma aparência de santidade em público enquanto destroem emocionalmente aqueles que convivem ao seu lado. O amor verdadeiro não se mede por discursos religiosos, cargos espirituais ou demonstrações públicas de fé, mas pela forma como tratamos os mais próximos quando ninguém está olhando.
A religião pode orientar, a filosofia pode provocar reflexão e a espiritualidade pode consolar; porém, sem transformação íntima, tudo se torna apenas um teatro moral. No fim, cada ser humano será lembrado menos pelas palavras que pregou e mais pelas marcas que deixou no coração das pessoas.
Nova Venécia, 11 de maio de 2026.
Muita paz,
Rafael Cremasco Lacerda
Referências Bibliográficas
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O Evangelho Segundo o Espiritismo — FEB Editora
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O Livro dos Espíritos — FEB Editora
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Assim Falou Zaratustra
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Apologia de Sócrates
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Bíblia Sagrada — Evangelho de Mateus 23:27 (“sepulcros caiados”)
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Bíblia Sagrada — Gálatas 6:7 (“tudo o que o homem semear, isso também colherá”)