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Onde mora a felicidade? Esperança, consolação e serviço
E se a felicidade não estiver no que possuímos, mas na consciência tranquila, na esperança e no bem que fazemos? Entre experiências marcantes e as lições de Kardec, descubra onde ela realmente mora.
Durante o 5º Congresso FEEMS, o juiz de Direito e palestrante Haroldo Dutra Dias iniciou sua exposição afirmando que nunca estivemos tão necessitados das luzes do Consolador prometido quanto agora.
Segundo sua reflexão, a humanidade sofre as consequências de um materialismo cultivado ao longo dos séculos. Parte do sofrimento social, moral, emocional e psíquico que observamos seria decorrente dessas escolhas. Entretanto, não estamos abandonados nesta noite imensa que atravessamos: temos o Evangelho Redivivo e as luzes do Consolador para nos orientar.
Sabemos, pelas promessas do próprio Cristo, que um futuro promissor aguarda a humanidade, tanto individual quanto coletivamente. Isso não significa que deixaremos de enfrentar dificuldades. O próprio Jesus advertiu:
“No mundo, vocês passam por aflições; mas tenham coragem: eu venci o mundo.”
A esperança cristã não promete uma existência sem problemas. Ela oferece sentido, direção e coragem para atravessá-los. (João 16:33)
Haroldo prosseguiu refletindo sobre a felicidade à luz da extraordinária obra O Céu e o Inferno, de Allan Kardec. Segundo ele, uma das primeiras perguntas feitas aos espíritas é:
— Vocês acreditam no inferno?
De maneira provocativa, ele responde que acredita no inferno e no diabo, com uma diferença: não acredita em um único diabo, mas em vários.
Nesse contexto, o “diabo” não seria uma criatura eternamente destinada ao mal, mas o próprio ser humano quando abdica de um dos maiores presentes que a Divindade lhe concedeu: a oportunidade de ser bom e de construir a própria felicidade.
Toda vez que desprezamos nossa capacidade de amar, servir e agir com bondade, transformamo-nos em agentes contrários às leis divinas. Destruímos laços de fraternidade e adoecemos nossas relações. Pouco a pouco, transformamos nosso psiquismo em uma espécie de inferno e perturbamos a vida de todos os que convivem conosco.
Não se trata de demonizar pessoas. Trata-se de reconhecer que podemos criar ambientes de paz ou de sofrimento a partir das escolhas que fazemos diariamente.
Não pretendo adentrar ainda mais na palestra. Recomendo fortemente que a assistam com a mente e o coração abertos, pois sua mensagem é extremamente importante para o momento que vivemos. O vídeo está disponível nas referências ou pode ser acessado neste link.
Considerei oportuno mencionar o início da palestra porque ele nos convida a refletir sobre o que estamos buscando e, principalmente, sobre o que chamamos de felicidade.
Equivocadamente, transferimos essa responsabilidade para bens materiais, acontecimentos e pessoas. Quando não culpamos o carro, a casa, o dinheiro ou algum objeto que ainda não conseguimos comprar, responsabilizamos quem vive conosco — normalmente o marido, a esposa ou o companheiro. Quando jovens, culpamos os pais ou aqueles que assumiram a responsabilidade de cuidar de nós.
Sempre há um culpado disponível.
O trabalho também é um forte candidato às críticas do dia a dia. Culpá-lo por nossa infelicidade tornou-se algo corriqueiro. Evidentemente, existem ambientes profissionais injustos, adoecedores e desumanos. Contudo, nem toda insatisfação nasce do trabalho. Algumas vezes, levamos para ele conflitos que já estavam dentro de nós.
A felicidade pode ser encontrada na sensação de utilidade, no prazer de fazer o melhor por alguém, na tranquilidade de cumprir o próprio dever e na alegria de chegar a um lugar onde nossa presença é recebida com sinceridade.
Certa vez, fui chamado para atender uma jovem mãe que enfrentava uma grave crise emocional e se encontrava em situação de risco (simplifiquei o fato). Aproximei-me com cuidado, sentei-me perto dela e permaneci conversando por alguns minutos.
Ela enfrentava problemas financeiros, dependência química e muitas dificuldades pessoais. Estava profundamente abatida e parecia não encontrar esperança no próprio futuro.
Aquela situação precisava de mais do que uma intervenção policial ou do Corpo de Bombeiros. Retirá-la do perigo imediato era indispensável, mas não resolveria as causas de seu sofrimento. Ela precisava ser ouvida, acolhida e encaminhada para cuidados especializados.
Procurei ajudá-la a perceber que aquele momento de dor não precisava determinar o restante de sua história. Sua vida possuía valor, e ainda existiam caminhos que talvez ela não conseguisse enxergar naquele instante. Falamos também sobre sua criança, sobre cuidado, responsabilidade e a possibilidade de recomeçar com o apoio adequado.
Naquele momento, minha felicidade consistiu em fazer algo além do procedimento mínimo. Pensei naquela mãe e em sua criança. Não foi um ato grandioso, tampouco heroico. Foi apenas a tentativa sincera de estar presente quando alguém precisava não somente de uma autoridade, mas de outro ser humano.
Compreendi que, algumas vezes, a felicidade se apresenta de maneira silenciosa: ela surge quando percebemos que fomos úteis na vida de alguém.
A empatia, contudo, não substitui o acompanhamento de profissionais de saúde. Em situações de grave sofrimento emocional, acolher é fundamental, mas buscar atendimento especializado também é uma demonstração de amor, responsabilidade e respeito pela vida.
Para mim, a vida é um presente de Deus e uma oportunidade de evolução moral e espiritual. Somos criaturas em processo de aperfeiçoamento e trazemos, em nossa origem divina, o chamado para o amor.
Por isso, é difícil encontrar paz enquanto alimentamos continuamente a raiva, o ódio e o rancor. Essas emoções fazem parte da experiência humana e não devem ser simplesmente negadas. O problema começa quando não conseguimos abandonar essas emoções insalubres e permitimos que se tornem permanentes.
O estresse excessivo ou prolongado pode afetar o corpo, dificultar o sono, provocar desconfortos digestivos e agravar problemas de saúde já existentes. (Organização Mundial da Saúde)
No campo espiritual, o rancor nos mantém ligados àquilo que desejamos superar. Podemos até nos afastar fisicamente de quem nos feriu, mas continuamos presos à pessoa enquanto repetimos mentalmente a ofensa.
Guardar rancor é permitir que o passado continue cobrando aluguel dentro de nós.
Perdoar não significa aprovar a injustiça, esquecer o que aconteceu ou permitir que a agressão se repita. Significa retirar do ofensor o poder de continuar governando nossas emoções.
Também é possível encontrar felicidade fazendo o bem a alguém que praticou um crime. Acredite!
Certa vez, socorri um homem que, durante uma fuga pela mata, sofreu uma grave lesão na perna. Se não fosse resgatado e atendido a tempo, poderia enfrentar consequências permanentes. Depois de realizar o socorro, levei-o ao hospital mais próximo para os primeiros atendimentos e depois o levei para cidade vizinha que tinha mais recursos e UTI. Depois precisei entrar em contato com o médico de plantão para adiantar o procedimento.
Ele havia praticado um crime, mas, naquele momento, também era um ser humano ferido e necessitado de socorro.
A felicidade daquela ocorrência não estava no crime, na fuga ou na possível punição. Estava na oportunidade de não permitir que o julgamento e o ressentimento determinassem minha conduta. Fizemos o bem sem exigir gratidão e sem esperar qualquer coisa em troca.
Esse episódio me ensinou que nossos princípios somente demonstram seu verdadeiro valor quando são aplicados também diante de quem não desperta nossa simpatia.
É fácil fazer o bem a quem amamos. A caridade começa a ser verdadeiramente desafiadora quando a necessidade do outro fala mais alto do que nossos julgamentos.
Em O Livro dos Espíritos, a caridade é definida como:
“Benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições dos outros, perdão das ofensas.”
Não diz benevolência apenas para os amigos, para os inocentes ou para aqueles que pensam como nós. Diz: para com todos. (Questão 886)
Viajar, comer algo novo e saboroso, conhecer lugares diferentes e viver novas experiências é maravilhoso. Não há nada de errado nesses prazeres. O problema é acreditar que eles conseguirão preencher permanentemente os vazios da alma.
Quando estamos acompanhados por pessoas que amamos e a quem desejamos o bem, a experiência se torna ainda mais significativa. Observe o que acontece quando presenciamos algo fantástico sozinhos: quase sempre nos lembramos de alguém que gostaríamos que estivesse ao nosso lado.
A beleza parece pedir companhia.
A alegria parece desejar ser compartilhada.
A felicidade, portanto, não está apenas no que recebemos da vida, mas também no que fazemos circular.
Pesquisas sobre comportamento pró-social encontraram uma associação positiva, embora modesta, entre ajudar outras pessoas e o bem-estar. A relação foi mais forte com o bem-estar ligado ao sentido, ao propósito e ao funcionamento psicológico do que com o simples prazer momentâneo. A ciência não afirma que toda boa ação produzirá felicidade automática, mas reforça a ideia de que uma vida voltada somente para si mesma tende a perder parte de seu significado. (Hui et al., 2020)
Servir, entretanto, não significa anular-se. Não significa aceitar abusos, permitir exploração ou abandonar a própria saúde. O amor ao próximo não exige desprezo por nós mesmos. Para ajudar de maneira saudável e duradoura, também precisamos reconhecer nossos limites e aceitar cuidados quando necessário.
Allan Kardec perguntou aos Espíritos se o ser humano poderia desfrutar de completa felicidade na Terra. A resposta foi negativa, pois a existência terrena ainda envolve provas, dificuldades e aprendizado. Contudo, também foi esclarecido que podemos suavizar muitos de nossos males e ser tão felizes quanto possível neste mundo.
Na questão 922 de O Livro dos Espíritos, encontramos um dos critérios mais simples e profundos sobre a felicidade:
“Com relação à vida material, é a posse do necessário. Com relação à vida moral, a consciência tranquila e a fé no futuro.”
Talvez seja exatamente aí que a felicidade more: no necessário, na consciência tranquila e na fé no futuro. (Questões 920 a 922)
Precisamos desse despertar da consciência para que sejamos verdadeiramente felizes — não de maneira permanente e sem interrupções, pois ainda teremos aflições neste mundo. A graça da vida está justamente na oportunidade de acertar, reparar nossos erros e remediar as consequências equivocadas de nossos atos.
Não tenho grande habilidade para falar em público. Se algum dia alguém me vir em um púlpito falando para multidões, certamente deverá ser uma faculdade mediúnica bastante ostensiva, porque não consigo me imaginar nessa posição.
Talvez esse seja um dos motivos pelos quais nunca me interessei em ser político.
Para ganhar uma eleição, o político normalmente precisa ser eloquente e contagiante. O problema não está na eloquência, mas em utilizá-la para prometer aquilo que o povo deseja ouvir, mesmo quando a promessa é impossível, inviável ou desonesta.
O político seria mais feliz — e a população também — se prometesse somente aquilo que pudesse cumprir e preservasse um mínimo de justiça, verdade e caráter.
Enganar as pessoas impede a felicidade tanto de quem engana quanto de quem é enganado.
O mesmo pode acontecer em um casamento. Durante a cerimônia, prometem-se fidelidade, amor, respeito e proteção. Depois que a porta de casa se fecha, porém, algumas pessoas se esquecem de tudo o que juraram.
O casamento não é sustentado pela beleza da promessa feita no altar, mas pela fidelidade cotidiana à palavra empenhada. A política também não deveria ser sustentada por discursos de campanha, e sim pela fidelidade diária aos compromissos assumidos.
Temos que ser responsáveis por aquilo que nos propusemos a fazer nesta vida.
Se você é pedreiro, não construa uma parede torta ou um prédio inseguro. Aquela parede fará parte da casa e dos sonhos de outra família.
Se é comerciante, não engane o consumidor.
Se é profissional da saúde, não trate uma pessoa como se fosse apenas um número.
Se é policial, não permita que a autoridade destrua sua humanidade.
Se é político, não transforme a esperança da população em instrumento para conquistar poder.
Se prometeu, esforce-se para cumprir. Se não pode cumprir, tenha coragem para dizer a verdade.
Enganar traz consequências para a consciência, para os relacionamentos e para a própria paz. É difícil dormir tranquilamente quando precisamos inventar justificativas para aquilo que sabemos ter feito de maneira errada.
Em O Céu e o Inferno, Kardec ensina que a felicidade dos Espíritos elevados não se encontra em uma ociosidade contemplativa. Ela está ligada à atividade, ao progresso e ao bem realizado. A felicidade espiritual não é ficar parado recebendo recompensas; é participar conscientemente da obra divina. (O Céu e o Inferno)
Talvez estejamos procurando a felicidade no lugar errado.
Procuramos no carro novo, quando ela poderia estar na consciência de quem trabalhou honestamente para adquiri-lo.
Procuramos na viagem, quando ela talvez esteja na companhia com quem dividimos o caminho.
Procuramos no reconhecimento público, quando ela pode estar na gratidão silenciosa de alguém que ajudamos.
Procuramos na ausência de problemas, quando ela talvez esteja na coragem de enfrentá-los sem perder a bondade.
A felicidade não é uma euforia permanente. Não significa sorrir o tempo inteiro nem ignorar a dor. Ela é uma orientação moral: a certeza íntima de que, apesar das imperfeições, estamos tentando caminhar na direção correta.
Ela está na refeição compartilhada, no trabalho realizado com honestidade, na pessoa socorrida, no compromisso cumprido, no perdão que nos liberta, na esperança que resiste e no recomeço que parecia impossível.
Onde mora a felicidade?
Ela não possui endereço único, mas costuma visitar aqueles que aprenderam a se contentar com o necessário, conservar a consciência tranquila, acreditar no futuro e tornar um pouco melhor a vida de alguém.
Talvez Deus não tenha colocado a felicidade apenas no final da jornada, como um prêmio distante. Talvez tenha espalhado pequenas porções dela ao longo do caminho, para que reconheçamos, por meio da paz sentida após cada boa escolha, que estamos seguindo na direção certa.
Nova Venécia, 20 de agosto de 2026.
Sigamos em paz,
Rafael Cremasco Lacerda
Referências bibliográficas e audiovisuais
BÍBLIA SAGRADA. Evangelho segundo João, capítulo 16. Nova Almeida Atualizada. Sociedade Bíblica do Brasil, 2017.
DIAS, Haroldo Dutra. Onde mora a felicidade? Esperanças e consolações — 5º Congresso FEEMS. Palestra.
HUI, Bryant P. H. et al. Rewards of kindness? A meta-analysis of the link between prosociality and well-being. Psychological Bulletin, v. 146, n. 12, p. 1084–1116, 2020.
KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno ou a Justiça Divina segundo o Espiritismo. Paris, 1865.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos — questões 920 a 922. Parte quarta: Das esperanças e consolações.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos — questão 886. Caridade e amor do próximo.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Stress: Questions and Answers. Atualizado em 30 mar. 2026.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Fazer o que importa em tempos de estresse: um guia ilustrado. Genebra: OMS, 2020.