PUBLICAÇÕES Incompreensões da Vida Um peso, duas medidas
Entre julgamentos apressados e narrativas seletivas, a sociedade revela sua contradição: exige perfeição de quem decide em segundos, mas aplica pesos diferentes conforme o alvo. Até que ponto estamos buscando justiça — ou apenas culpados?
Apesar do título sugestivo, nosso assunto vai muito além de simples medidas. Abordaremos algo mais profundo e complexo, que envolve percepção, julgamento e, sobretudo, justiça.
Para iniciar esta reflexão, recorro à sabedoria contida na canção “É Preciso Saber Viver”, dos Titãs:
“Quem espera que a vida
Seja feita de ilusão
Pode até ficar maluco
Ou morrer na solidão
É preciso ter cuidado
Pra mais tarde não sofrer
É preciso saber viver…”
Vivemos cercados por ilusões. Esperamos um mundo perfeito, um casamento perfeito, um emprego perfeito. Sonhamos até com ganhos improváveis, como vencer na loteria. Sonhar é natural e, em certa medida, necessário; contudo, é preciso reconhecer os limites da realidade em que vivemos. Nem tudo é possível, e o mundo está longe de ser justo. O que para alguns é facilitado, para outros é dificultado. O que é crime para um, para outro pode ser tratado como um mero equívoco inocente.
Como já refletia Aristóteles, “a equidade consiste em corrigir a lei quando ela é deficiente em razão de sua universalidade”. Ou seja, nem sempre a aplicação fria das regras resulta em justiça verdadeira — algo que parece cada vez mais evidente em nossa sociedade.
Nesta semana, vimos nos noticiários do Espírito Santo a exposição de policiais militares que realizaram um atendimento de ocorrência que terminou de forma trágica. Como frequentemente ocorre, parte da mídia se dedica de forma implacável a difamar os policiais, mesmo sem informações precisas ou devidamente verificadas, muitas vezes baseando-se em narrativas superficiais ou no imaginário de quem relata.
Em contrapartida, quando ocorre a prisão de um criminoso confesso, suspeito ou investigado, qualquer ato de vincular sua imagem pode ser considerado crime. Todavia, essa mesma cautela parece ser ignorada quando se trata de policiais ou militares. Observa-se que nem mesmo vítimas — como lojistas que sofreram furtos — podem divulgar imagens dos autores, ainda que com o objetivo de proteger seus próprios direitos.
Há, portanto, uma clara assimetria: em muitos casos, sequer conseguimos utilizar provas para responsabilizar quem cometeu crimes; no entanto, imagens e julgamentos precipitados são amplamente utilizados para condenar policiais, mesmo quando ainda não há certeza dos fatos.
A sociedade parece esperar uma polícia branda e quase idealizada, mas, paradoxalmente, exige decisões extremas em frações de segundo. Exige-se, por exemplo, que policiais reajam com precisão absoluta em situações caóticas, chegando ao ponto de se esperar que um militar atire contra o próprio colega em um cenário confuso, sem tempo hábil para compreender plenamente o que está acontecendo.
Os militares não têm como prever o desenrolar exato de uma ocorrência. Não possuem onisciência. Não podem agir com base em suposições. Atirar contra um colega sem a devida certeza poderia resultar em consequências ainda mais graves. Cada disparo carrega um peso irreversível — físico, moral e jurídico.
Nesse ponto, cabe a reflexão bíblica: “Não julgueis, para que não sejais julgados” (Evangelho de Mateus 7:1). A advertência é clara: o julgamento precipitado revela mais sobre quem julga do que sobre o julgado.
Falta, muitas vezes, empatia. Não se sabe o que levou determinado militar a agir de forma tão extrema. Teria sido um fato isolado? Ou o resultado de problemas acumulados, negligenciados ao longo do tempo? É justo transferir a culpa para colegas que, aparentemente, não tinham qualquer relação com a situação pessoal vivida por ele? Qual a parcela de culpa da própria sociedade para eclosão de eventos trágicos, o que estamos fazendo para agravar os conflitos? O que estamos fazendo para evitar que pessoas cheguem em seus extremos? Será que estamos escondendo a causa dos problemas? Será que estamos agindo certo o tempo todo e a culpa é sempre do outro? Será que estou fazendo algo para contribuir com o estado emocional caótico da sociedade? As políticas públicas estão fazendo alguma diferença real em nossas vidas ou estamos transferindo nossas frustrações para os policiais e demais pessoas que apenas cumprem ordens.
A O Livro dos Espíritos ensina, na questão 919, que o verdadeiro autoconhecimento é essencial para o progresso moral do indivíduo. No entanto, se mal conhecemos a nós mesmos, como podemos julgar com segurança as ações e intenções dos outros?
Somos humanos, falhos e limitados. Não conseguimos prever o que se passa na mente alheia — e, por vezes, sequer compreendemos plenamente nossos próprios pensamentos e emoções.
Cobramos perfeição das pessoas e, ainda assim, julgamos seus atos como se nossas soluções fossem sempre as melhores. No entanto, nos momentos críticos, não estamos presentes para decidir. Não sentimos a pressão, não enfrentamos o risco, não vivenciamos o medo. Ainda assim, julgamos — e condenamos — aqueles que tiveram apenas milésimos de segundo para agir, muitas vezes sem tempo real de reação.
Como advertia Sócrates, “só sei que nada sei”. Talvez essa seja uma das maiores lições esquecidas em tempos de julgamentos rápidos: a humildade diante da complexidade da vida.
Nova Venécia, 21 de abril de 2026.
Muita paz,
Rafael Cremasco Lacerda
Referências
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Aristóteles — Ética a Nicômaco
https://www.dominiopublico.gov.br -
Bíblia Sagrada — Evangelho de Mateus 7:1
https://www.bibliaonline.com.br -
O Livro dos Espíritos — Allan Kardec
https://kardecpedia.com -
Sócrates — pensamentos clássicos da filosofia grega
https://plato.stanford.edu